FILAS PARA O AUXÍLIO EMERGENCIAL REFLETEM A ABOLIÇÃO QUE NUNCA VEIO

“No dia 14 de maio, eu saí por aí
Não tinha trabalho, nem casa, nem pra onde ir
Levando a senzala na alma, eu subi a favela
Pensando em um dia descer, mas eu nunca desci

Zanzei zonzo em todas as zonas da grande agonia
Um dia com fome, no outro sem o que comer
Sem nome, sem identidade, sem fotografia
O mundo me olhava, mas ninguém queria me ver (…)”

A abolição foi decretada, mas não se implementou qualquer medida de promoção à cidadania plena, no sentido político e social, aos ex-escravos. Ao contrário, o que se viu à época é similar ao que continuamos a assistir hoje, diariamente, nas filas da Caixa Econômica para recebimento do Auxílio Emergencial: a desigualdade social e racial que nos aflige e perpetua a institucionalização do racismo.

O salto temporal é necessário para mostrar que uma coisa não está dissociada de outra. Afinal, as feridas de quase quatro séculos de escravidão não seriam cicatrizadas com uma simples medida legal (motivada por interesses econômicos e não por razões humanitárias, cabe lembrar). A libertação não trouxe qualquer forma de compensação para os negros, como acesso à terra e à moradia. Eles ainda precisavam disputar as vagas de trabalho com os brancos e imigrantes – que, sem dúvida, levavam mais vantagem para o emprego por conta de sua origem social ou, sobretudo, por não carregarem o peso da escravidão recente.

Em pleno século XXI, uma pandemia que chegou a ser anunciada como “democrática” por supostamente atingir por igual as diferentes classes sociais, mostra quão relativa é a distância que separa 2020 de 1888. A segregação moderna se faz através de medidas do governo que ignoram as diferenças e tratam os desiguais sem respeitar a medida de suas desigualdades. Justamente a parte da população que deveria ser o foco principal do auxílio emergencial é que está aglomerada diante das agências em todo o país. Por dificuldades muitas vezes relacionadas à falta de acesso à educação formal ou à tecnologia, essas pessoas simplesmente não conseguem cumprir os complexos trâmites burocráticos impostos pelo Estado brasileiro para terem o cadastro aprovado e acessarem o benefício a que têm direito.

E os excluídos são os mesmos de sempre. Noite após noite, semana após semana, filas imensas continuam se formando à porta das agências bancárias. Negros e pobres (ou brancos quase pretos de tão pobres, diria Caetano Veloso), em sua imensa maioria, expõem-se à contaminação por um vírus que não se cansa de mostrar seu poder letal.

A desorganização, é preciso que se diga, não é pontual e isolada. Integra todo um histórico de falta de investimentos e destruição do serviço público que entidades como o SINTSEF-BA, a CONDSEF/FENADSEF e a CUT denunciam e enfrentam cotidianamente. Gestão ineficiente, falta de trabalhadores disponíveis para enfrentar a crise, o abandono da população carente à própria sorte e o desrespeito a direitos promovem o caos. 132 anos depois da Lei Áurea, a população negra e afrodescendente do Brasil ainda luta contra as estatísticas, por ações afirmativas capazes de reduzir a desigualdade e refletir em uma vida com a dignidade a que tem direito.